segunda-feira, 17 de dezembro de 2012 0 comentários

A Democracia e a PUC


Nós, estudantes da PUC-SP, sempre lutamos por uma democracia absoluta, conquistamos, após muitos esforços, o direito de voto, através de uma lista tríplice, para a escolha de nosso reitor, porém o veredito final é de responsabilidade do cardeal da época. O diferencial nesse episódio, se dá pelo fato de pertencermos a uma instituição privada, o que mostra que não foi uma conquista fácil e nem rápida.
Como podemos notar, o nome da nossa universidade se inicia com: ‘Pontifícia’, mas o que significa exatamente ser uma pontifícia ? O principal significado desse, aparentemente, simples nome revela uma submissão à chamada Santa Fé, Igreja Católica.  Particularmente, nossa PUC-SP é uma instituição mantida pela Fundação São Paulo, a chamada FUNDASP.
Ano de 2012, ano de votação. A lista tríplice seguia como todos os anos de eleição: três candidatos, votos de funcionários, alunos e professores. Após a votação, o vencedor das eleições foi o professor reeleito Dirceu de Mello. Porém, algo diferente, nunca visto antes na história da universidade, aconteceu: No momento da nomeação, o cardeal-arcebispo Dom Odilo Scherer cedeu ao cargo de reitor a professora Anna Cintra,ultima colocada nas votações, e não Dirceu de Mello como era o esperado. A partir disso, houve uma divergência muito acentuada em nossa universidade: Os que estavam apoiando a candidatura de Anna Cintra, sendo a favor à atitude de Dom Odilo, e os que estavam contra à atitude do Cardeal, sendo a favor da nomeação do reitor que realmente foi o vencedor das eleições, no caso Dirceu do Mello. E também tinha um outro grupo divergente, nomeado como ‘ Lutadores da Democracia’, lutam por um fim desse autoritarismo católico, buscando um reconhecimento oficial do resultado das urnas, fato que antigos estudantes da PUC-SP lutaram para conquistar.
O acontecimento da greve na PUC,para alguns podem não representar nada,porém ao analisar meticulosamente a desenvoltura de todo esse processo,podemos estabelecer comparações políticas com uma obra importantíssima O Príncipe,do notável autor Maquiavel
Para compreendemos essa comparação embasaremos a partir do fato que deu origem a greve.O grão-chanceler, D.Odilo Scherer, nomeou, antidemocraticamente, Ana Cintra para reitora, pois este repudiou as eleições que haviam sido feitas, do qual Dirceu ganhou de forma honesta- maior número de votos arrecadados-. Como toda causa tem sua consequência posterior, tanto alunos quanto professores se mobilizaram em prol de algo maior que, no caso, era o jus naturalis de Dirceu subir ao poder e não Ana Cintra, previsto pela própria democracia e cuja instituição em questão fora uma das primeiras a adotar este sistema de eleição de reitores viabilizada pelos alunos. D.Odilo tentou utilizar de seu status, bem como de seu prestígio, para eleger Ana Cintra- analogo ao direito do mais forte que, ao usar a coerção (força) representa, apenas, um ato de necessidade e não de vontade expressa por uma coletividade- da qual esta não obteve êxito em adentrar a faculdade, utilizando-se da força e sobrepujando os preceitos democráticos aderidos anteriormente pela instituição.
Ana Cintra está longe de se tornar um legítimo príncipe ao se dispor desta figura de odiada ao invés de temida, conseguindo, unicamente, um profundo desprezo por parte dos estudantes e não sendo legitimada pelos mesmos como reitora da universidade; o ódio apenas faz com que a figura do soberano, na maioria das vezes, seja substituída por outro através de votos (mecanismo da democracia), diferentemente do temor que compele os indivíduos de uma determinada localidade a acatar os mandamentos, as leis e obedecê-los fielmente. Porém, não obterá êxito ao dispor somente da razão ou da força (o que demonstra uma certa inabilidade por parte do soberano pelo fato de agir em extremos e não procurando o meio termo), é preciso saber conciliar esta (faculdade presente em Ana Cintra) e aquela (seu desfalque)¹, mesmo não possuindo tais virtudes², o importante é que o soberano tenha uma maleabilidade- “transmudabilidade”- em adotar uma determinada figura, mas também sua antítese, quando seu poder é ameaçado- faculdade não presente em Ana Cintra, pois persistiu ao valer-se somente da força e não do meio termo-. 
Esta greve pode ser encarada como a fortuna³ (impecílio/impasse para o governante que deve ser dominada), da qual estas circunstâncias regulam a moral (sinônimo de comportamento, até mesmo de índole) tanto dos governantes quanto dos governados. Todavia, por ela cituar-se no âmbito acadêmico - pressupõem-se um lugar do qual há pessoas de escolaridade e nível intelectual alto- demanda do soberano (ou daquele que deseja subir ao poder) agir circunspectamente (cautela), “se um [homem, príncipe...] pautar as suas ações pela prudência, e pela paciência, e se os tempos e as circunstâncias concorrerem de um modo compatível com a sua conduta, ele será venturoso. Se os tempos e as circunstâncias, porém, mudarem, ele cairá em ruína não alterando o seu comportamento. Conquistarão a felicidade se desta fortuna seus atos convergirem e desditosos quando dela divergirem”. Ana Cintra valeu-se, justamente, do contrário deste tempo, que demandava uma postura cautelosa, racional, para ter alguma chance de subir ao poder. Divergiu, imensamente, das necessidades dos alunos da instituição, na esperança de que um único indivíduo pudesse empossá-la, sem se preocupar em obter força e sustentação na maioria, do qual fora seu maior erro e motivo de indignação por grande parte do corpo docente.
O sistema democrático não é e nunca foi uma instituição de origem divina. A ideia de que os próprios homens sabem o que é melhor para si é uma filosofia "mundana" (inventada neste mundo, neste planeta e não se baseia na orientação de Deus)
Foi possível observar através das comparações feitas que um fato atual,como a greve da PUC,pode conter características que incitam a analise de conceitos e idéias já defendidos e debatidos no passado por autores antigos,como por exemplo Nicolau Maquiavel,século XVI,que fora o escolhido ,até aqui, na observação de determinadas semelhanças atuais com relação a sua obra  .Porém além desse filosofo político é importante ressaltar outras coisas notáveis desse movimento grevista,tal como,a democracia, que por sua vez, é um conceito de difícil definição, fundamentado na noção de uma comunidade política na qual todas as pessoas possuem o direito de participar dos processos políticos e de debater ou decidir políticas igualmente e, na acepção moderna, na qual certos direitos são universalizados a partir dos princípios de liberdade de expressão e dignidade humana. 
Ao longo da história podemos notar o grande número de vezes que a Igreja Católica interferiu em assuntos políticos que não cabem a Igreja. Mostrando assim o seu interesse por trás de certas questões.
A maior parte das vezes que vemos a Igreja fazendo parte de decisões políticas não ouvimos falar em Democracia, principalmente quando o representante religioso é autoritário, como presenciamos os recentes acontecimentos na Puc.
O que acontece é que o Grão-chanceler de fato possui poder para tomar determinadas medidas, mas tomou-as de forma autoritária e ditatorial desprezando a democracia conquistada pela comunidade Puquiana. Isso reflete anos da história da Igreja católica, seja sua relação com operário, sua repressão aos hereges – a inquisição -, e suas alianças com os príncipes de Maquiavel.
Não é possível que haja um Estado Democrático sem liberdade individual, segundo Toqueville; liberdade no sentido de livre arbítrio, de escolher o seu poder moral sobre o próprio destino, o seu dever e o direito de conduzir-se a si mesmo, sem deixar ninguém, muito menos ao Estado, encarregar-se desse bem único. O que nos leva a por em dúvida se na Puc existe ou já existiu mesmo uma democracia.
Toqueville diria que a vontade da maioria é o que constitui um Estado democrático. Mas como é possível evitar que este Estado vire uma Ditadura? Politizando a sociedade civil, que esta reúna-se constantemente em associações participando das decisões que dizem respeito a vontade coletiva, não negligenciando nunca a liberdade.



¹Maquiavel personifica estas duas figuras na forma do centauro, sendo este metade homem e metade animal, representando, respectivamente, a razão e a força. 
²”A um príncipe, portanto, não é necessário que de fato possua todas as sobreditas qualidades; é necessário, porém, e muito, que ele pareça possuí-las” (Maquiavel, O Príncipe, cap XVIII, pp. 87) ou seja, valer-se de simulador e dissimulador de acordo com as circunstâncias- fortuna- (manter-se no poder utilizando o bem, mas, se necessário, dispor do mal).
          ³Materializada pela figura da mulher, da qual o homem deve impor sua dominação “a fortuna é mulher, e, para mantê-la submissa, é preciso batê-la e maltratá-la” (Maquiavel, O Príncipe, cap XXV, pp. 124)



 
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