Nós, estudantes da
PUC-SP, sempre lutamos por uma democracia absoluta, conquistamos, após muitos
esforços, o direito de voto, através de uma lista tríplice, para a escolha de
nosso reitor, porém o veredito final é de responsabilidade do cardeal da época.
O diferencial nesse episódio, se dá pelo fato de pertencermos a uma instituição
privada, o que mostra que não foi uma conquista fácil e nem rápida.
Como podemos notar, o nome da nossa
universidade se inicia com: ‘Pontifícia’, mas o que significa exatamente ser
uma pontifícia ? O principal significado desse, aparentemente, simples nome
revela uma submissão à chamada Santa Fé, Igreja Católica. Particularmente, nossa PUC-SP é uma
instituição mantida pela Fundação São Paulo, a chamada FUNDASP.
Ano de 2012, ano de votação. A lista
tríplice seguia como todos os anos de eleição: três candidatos, votos de
funcionários, alunos e professores. Após a votação, o vencedor das eleições foi
o professor reeleito Dirceu de Mello. Porém, algo diferente, nunca visto antes
na história da universidade, aconteceu: No momento da nomeação, o
cardeal-arcebispo Dom Odilo Scherer cedeu ao cargo de reitor a professora Anna
Cintra,ultima colocada nas votações, e não Dirceu de Mello como era o esperado.
A partir disso, houve uma divergência muito acentuada em nossa universidade: Os
que estavam apoiando a candidatura de Anna Cintra, sendo a favor à atitude de
Dom Odilo, e os que estavam contra à atitude do Cardeal, sendo a favor da
nomeação do reitor que realmente foi o vencedor das eleições, no caso Dirceu do
Mello. E também tinha um outro grupo divergente, nomeado como ‘ Lutadores da
Democracia’, lutam por um fim desse autoritarismo católico, buscando um
reconhecimento oficial do resultado das urnas, fato que antigos estudantes da
PUC-SP lutaram para conquistar.
O acontecimento da greve na
PUC,para alguns podem não representar nada,porém ao analisar meticulosamente a
desenvoltura de todo esse processo,podemos estabelecer comparações políticas com
uma obra importantíssima O Príncipe,do notável autor Maquiavel
Para compreendemos essa
comparação embasaremos a partir do fato que deu origem a greve.O
grão-chanceler, D.Odilo Scherer, nomeou, antidemocraticamente, Ana Cintra para
reitora, pois este repudiou as eleições que haviam sido feitas, do qual Dirceu
ganhou de forma honesta- maior número de votos arrecadados-. Como toda causa
tem sua consequência posterior, tanto alunos quanto professores se mobilizaram
em prol de algo maior que, no caso, era o jus naturalis de Dirceu subir ao
poder e não Ana Cintra, previsto pela própria democracia e cuja instituição em
questão fora uma das primeiras a adotar este sistema de eleição de reitores
viabilizada pelos alunos. D.Odilo tentou utilizar de seu status, bem como de
seu prestígio, para eleger Ana Cintra- analogo ao direito do mais forte que, ao
usar a coerção (força) representa, apenas, um ato de necessidade e não de
vontade expressa por uma coletividade- da qual esta não obteve êxito em
adentrar a faculdade, utilizando-se da força e sobrepujando os preceitos
democráticos aderidos anteriormente pela instituição.
Ana Cintra está longe de se
tornar um legítimo príncipe ao se dispor desta figura de odiada ao invés de
temida, conseguindo, unicamente, um profundo desprezo por parte dos estudantes
e não sendo legitimada pelos mesmos como reitora da universidade; o ódio apenas
faz com que a figura do soberano, na maioria das vezes, seja substituída por
outro através de votos (mecanismo da democracia), diferentemente do temor que
compele os indivíduos de uma determinada localidade a acatar os mandamentos, as
leis e obedecê-los fielmente. Porém, não obterá êxito ao dispor somente da
razão ou da força (o que demonstra uma certa inabilidade por parte do soberano pelo
fato de agir em extremos e não procurando o meio termo), é preciso saber
conciliar esta (faculdade presente em Ana Cintra) e aquela (seu desfalque)¹,
mesmo não possuindo tais virtudes², o importante é que o soberano tenha uma
maleabilidade- “transmudabilidade”- em adotar uma determinada figura, mas
também sua antítese, quando seu poder é ameaçado- faculdade não presente em Ana
Cintra, pois persistiu ao valer-se somente da força e não do meio termo-.
Esta greve pode ser encarada
como a fortuna³ (impecílio/impasse para o governante que deve ser dominada), da
qual estas circunstâncias regulam a moral (sinônimo de comportamento, até mesmo
de índole) tanto dos governantes quanto dos governados. Todavia, por ela
cituar-se no âmbito acadêmico - pressupõem-se um lugar do qual há pessoas de
escolaridade e nível intelectual alto- demanda do soberano (ou daquele que
deseja subir ao poder) agir circunspectamente (cautela), “se um [homem,
príncipe...] pautar as suas ações pela prudência, e pela paciência, e se os tempos
e as circunstâncias concorrerem de um modo compatível com a sua conduta, ele
será venturoso. Se os tempos e as circunstâncias, porém, mudarem, ele cairá em
ruína não alterando o seu comportamento. Conquistarão a felicidade se desta
fortuna seus atos convergirem e desditosos quando dela divergirem”. Ana Cintra
valeu-se, justamente, do contrário deste tempo, que demandava uma postura
cautelosa, racional, para ter alguma chance de subir ao poder. Divergiu,
imensamente, das necessidades dos alunos da instituição, na esperança de que um
único indivíduo pudesse empossá-la, sem se preocupar em obter força e
sustentação na maioria, do qual fora seu maior erro e motivo de indignação por
grande parte do corpo docente.
O sistema democrático não é e
nunca foi uma instituição de origem divina. A ideia de que os próprios homens
sabem o que é melhor para si é uma filosofia "mundana" (inventada
neste mundo, neste planeta e não se baseia na orientação de Deus)
Foi possível observar através das comparações feitas
que um fato atual,como a greve da PUC,pode conter características que incitam a
analise de conceitos e idéias já defendidos e debatidos no passado por
autores antigos,como por exemplo Nicolau Maquiavel,século XVI,que fora o
escolhido ,até aqui, na observação de determinadas semelhanças atuais com
relação a sua obra .Porém além
desse filosofo político é importante ressaltar outras coisas notáveis desse
movimento grevista,tal como,a democracia, que por sua vez, é um conceito de difícil
definição, fundamentado na noção de uma comunidade política na qual todas as
pessoas possuem o direito de participar dos processos políticos e de debater ou
decidir políticas igualmente e, na acepção moderna, na qual certos direitos são
universalizados a partir dos princípios de liberdade de expressão e dignidade
humana.
Ao longo da história podemos notar o grande
número de vezes que a Igreja Católica interferiu em assuntos políticos que não
cabem a Igreja. Mostrando assim o seu interesse por trás de certas questões.
A maior parte das vezes que vemos a Igreja
fazendo parte de decisões políticas não ouvimos falar em Democracia,
principalmente quando o representante religioso é autoritário, como
presenciamos os recentes acontecimentos na Puc.
O que acontece é que o Grão-chanceler de
fato possui poder para tomar determinadas medidas, mas tomou-as de forma
autoritária e ditatorial desprezando a democracia conquistada pela comunidade
Puquiana. Isso reflete anos da história da Igreja católica, seja sua relação
com operário, sua repressão aos hereges – a inquisição -, e suas alianças com
os príncipes de Maquiavel.
Não é possível que haja um Estado
Democrático sem liberdade individual, segundo Toqueville; liberdade no
sentido de livre arbítrio, de escolher o seu poder moral sobre o próprio
destino, o seu dever e o direito de conduzir-se a si mesmo, sem deixar ninguém,
muito menos ao Estado, encarregar-se desse bem único. O que nos leva a por em dúvida se na Puc existe
ou já existiu mesmo uma democracia.
Toqueville
diria que a vontade da maioria é o que constitui um Estado democrático. Mas
como é possível evitar que este Estado vire uma Ditadura? Politizando a sociedade
civil, que esta reúna-se constantemente em associações participando das
decisões que dizem respeito a vontade coletiva, não negligenciando nunca a
liberdade.
¹Maquiavel personifica estas duas figuras na forma do centauro, sendo este metade homem e metade animal, representando, respectivamente, a razão e a força.
²”A um príncipe, portanto, não é necessário que de fato possua todas as sobreditas qualidades; é necessário, porém, e muito, que ele pareça possuí-las” (Maquiavel, O Príncipe, cap XVIII, pp. 87) ou seja, valer-se de simulador e dissimulador de acordo com as circunstâncias- fortuna- (manter-se no poder utilizando o bem, mas, se necessário, dispor do mal).
³Materializada pela figura da mulher, da qual o homem deve impor sua dominação “a fortuna é mulher, e, para mantê-la submissa, é preciso batê-la e maltratá-la” (Maquiavel, O Príncipe, cap XXV, pp. 124)
³Materializada pela figura da mulher, da qual o homem deve impor sua dominação “a fortuna é mulher, e, para mantê-la submissa, é preciso batê-la e maltratá-la” (Maquiavel, O Príncipe, cap XXV, pp. 124)

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